8/09/2021

Corpos

Inspira e se move, sobe os braços para abarcar o céu, levanta a cabeça e seus olhos ardem, pensa no sol iluminando seu rosto, aquecendo sua pele, abre os olhos e uma luz branca devolve à sua retina raios de luz artificiais. Retorna à realidade, aos sons dos carros lá fora, dos pássaros, dos alunos à sua volta, braços levantados em busca de um céu azul escondido por trás de andares e mais andares de cômodos povoados de seres que ignoram o azul, ignoram a luz, ignoram a si mesmos. 

Expira e os braços baixam. Olha à sua volta e vê o reflexo de seu movimento refletido em outros corpos. Pernas e braços que não são seus, mas que levantam quando ela os levanta, e baixam quando ela os abaixa. Por alguns segundos diverte-se com a ideia de que ela os comanda, a todos - esses reflexos que não lhe pertencem. Mas então fecha os olhos e uma dúvida surge em sua mente - E se eu sou o reflexo?

Levanta-se e baixa os braços quando os reflexos os abrem, e lança a perna à frente quando eles as lançam para trás. Um deles volta-se para ela, o olhar questionador. Ela reflete um sorriso sem graça, corrige os movimentos. Um erro, um engano - só para ter certeza. 

C.C.


4/19/2016

Ritual

Esse ritual costumava ser sagrado, diário e corriqueiro. Fitar a tela em branco e ali transformar em palavras sentimentos que a dominavam e impressões que atingiam em cheio. Ela fitava o teclado e via as palavras prontas nas pontas dos dedos, que corriam céleres sem tropeçar, traduzindo emoções e imagens que a despertavam de seu torpor costumeiro. 
Era um ritual, e era uma parte de si. Mas em algum momento, em alguma parte, ela se perdeu. O ritual foi quebrado. A partir de então os sentimentos ficaram trancados e as imagens foram se perdendo, sem alguém que os traduzisse, já não faziam mais sentido, e eram deixados de lado... Ela se perdeu, e um dia percebeu que estava no escuro. As palavras já não vinham, e o teclado era cheio de letras em posições aleatórias que pareciam não se encaixar... Seus dedos tropeçavam e desistiam...Calaram-se. Assim como ela se calou para o mundo. E agora ela fita aquela tela em branco novamente, sem emoções, sem imagens para serem traduzidas, e o vazio que a preenche a assusta, e o escura que a cerca a faz tremer. Mas se ela conseguir fitar a luz, a luz que a fascina, a luz daquela tela em branco, e se ela conseguir escrever uma palavra sem tropeçar, então talvez não seja tarde, talvez ainda haja esperança, talvez ela ainda consiga gritar, aquele grito rouco de uma garganta seca há muito não utilizada, aquele grito que vem de dentro, da alma, aquele grito primevo - o primeiro passo para a libertação.

C.C.

3/12/2016

Passion

Angelus:

"Passion. It lies in all of us. Sleeping... waiting... And though unwanted... unbidden... it will stir... open its jaws, and howl.
It speaks to us... guides us... Passion rules us all. And we obey. What other choice do we have?
Passion is the source of our finest moments. The joy of love... the clarity of hatred... and the ecstasy of grief.
It hurts sometimes more than we can bear. If we could live without passion, maybe we'd know some kind of peace. But we would be hollow. Empty rooms, shuttered and dank... Without passion, we'd be truly dead."

3/07/2016

Loss

Eu sei porque me sinto tão triste, sei porque quando paro por alguns segundos meu olhar se perde e vaga sem rumo. Sei porque dentro de minha cabeça aquela cena se repete e não há nada que eu possa fazer para impedir seu desfecho - eu aceito.
Mas no exato momento em que aceito, eu me revolto. Então o mundo dá novamente seu grito desesperado de criança querendo atenção, e sou forçada a me resignar, e a deixar a cena de lado. Mas enquanto dou atenção para o mundo, nada muda, dentro de mim, nada muda...
Ainda sinto o aperto no peito, ainda sinto a resignação, e enfim, a revolta.
Eu aceito sem aceitar, e por um tempo esta será minha luta. O mundo pode gritar, não me importo. O mundo pode não entender, eu entendo. E sei que algumas pessoas compartilham deste entendimento, pois quando meu olhar se perde, sinto seus olhares tão perdidos quanto os meus, vagando pelas brumas da negação.
E tão mais difícil que entender, é tentar explicar. Eu nem tento.
Apenas aceito a companhia dos olhares perdidos como os meus e dos gritos sufocados que ecoam junto ao meu peito.
No fim, o mundo engole nossa dor, e sem querer acreditar, sem querer aceitar, sem querer... seguimos em frente.

C.C.

2/15/2014

Tempestade


O céu prateado ferindo meus olhos com sua luminosidade, o arrepio gélido que percorre meus braços quando esta doce brisa os toca. Folhas agitam-se e galhos curvam-se sob a sua vontade. Percorrendo todos os caminhos sem discriminação, espalhando seu frio abraço.
Tão esperada e tão temida a tempestade se aproxima, como as árvores que durante séculos resistem a sua fúria, fincamos nossos pés ao chão e curvamo-nos ante a força bruta, devastadora, ante a renovadora tempestade de verão.

1/15/2014

Paz

Penso. Logo tudo vira motivo para se analisar. Não que tudo esteja bem... Algumas coisas saem do controle enquanto outras voltam a ser o que eram. Paz... Busco por essa palavra. Anseio por tudo que ela representa, mas aprendi que enquanto se vive dela não desfrutamos. É só uma ilusão. O Graal dos que já não podem, mas que ainda assim seguem em frente. Não é a vida que cansa, o trabalho, as contas... É o mundo! A sociedade insaciável com suas leis imutáveis e estúpidas. A ganância, a ambição e a miséria, não dos que imploram por comida e água, mas miséria de humanidade.
No afã de sermos únicos, a espécie escolhida, a raça suprema - afogamo-nos na miséria da alma e do ser. De superior o que nos resta? Seres deprimentes que acreditam tudo ser e nada fazem. Mentiras e hipocrisia decoram aquilo que chamamos sociedade. PAZ! Muitos pedem e poucos compreendem. Deus nos olha e ri, enquanto uma lágrima escorre solitária - "O que foi que eu fiz..."

C.C.

12/17/2013

SAGA - Filipe Catto

Tirando as teias do Blog


Saga - Filipe Catto

Andei depressa para não rever meus passos
Por uma noite tão fugaz que eu nem senti
Tão lancinante, que ao olhar pra trás agora
Só me restam devaneios do que um dia eu vivi

Se eu soubesse que o amor é coisa aguda
Que tão brutal percorre início, meio e fim
Destrincha a alma, corta fundo na espinha
Inebria a garganta, fere a quem quiser ferir

Enquanto andava, maldizendo a poesia
Eu contei a história minha pr´uma noite que rompeu
Virou do avesso, e ao chegar a luz do dia
Tropecei em mais um verso sobre o que o tempo esqueceu

E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho com força, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer

E era de gozo, uma mentira, uma bobagem
Senti meu peito, atingido, se inflamar
E fui gostando do sabor daquela coisa
Viciando em cada verso que o amor veio trovar

Mas, de repente, uma farpa meio intrusa
Veio cegar minha emoção de suspirar
Se eu soubesse que o amor é coisa assim
Não pegava, não bebia, não deixava embebedar

E agora andando, encharcado de estrelas
Eu cantei a noite inteira pro meu peito sossegar
Me fiz tão forte quanto o escuro do infinito
E tão frágil quanto o brilho da manhã que eu vi chegar

E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho sorrindo, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer

C.C.


3/18/2013

A Fama da Fera

Teria chegado a tempo se não tivesse parado dois minutos para ir ao banheiro. Era o primeiro dia de aula numa disciplina em que a fama se espalha desde o topo da hierarquia acadêmica até as primeiras fases da graduação, não devido a sua dificuldade, mas devido ao seu ministrante. Uma disciplina prática de laboratório em que a pontualidade era essencial para a sobrevivência. Várias histórias aterrorizavam calouros e veteranos ano após ano, de criaturas que saiam aos prantos do laboratório e nunca mais eram vistas nos arredores do curso após alguns segundos de atraso.
Ela tinha certeza que por ser extremamente pontual em qualquer ocasião, isso nunca aconteceria com ela. Agora lá estava, sentada no banco do ônibus, os olhos grudados no relógio, as unhas sendo trituradas pelos dentes - ela rezava para que o veículo ganhasse asas, para se teletransportasse, ou que um raio o partisse em dois, em mil pedaços.
Desceu do onibus levando algumas bolsas, mochilas e pessoas de arrasto. Se ao menos tivesse conseguido segurar a vontade de ir ao banheiro por mais alguns segundos, não teria perdido o onibus, não teria pego um onibus que fosse quebrar cinco minutos após sair do terminal, e já estaria no laboratório, sorrindo. Mas não, lá estava ela, correndo pelo campus da universidade, entoando o mesmo mantra uma vez após a outra: Eu vou conseguir, vou chegar em cima da hora, mas vou conseguir.
Não conseguiu. Alcançou a porta do departamento no exato momento em que o professor se encaminhava para o laboratório. Correndo pelo corredor, viu o exato momento em que ele entrou na sala e fechou a porta atrás de si. Seu coração parou, suas pernas não. Quase caiu nesse desencontro de comandos, e acabou parando na porta da sala. Se entrasse sairia chorando e nunca mais seria vista no curso, se não entrasse choraria na próxima aula por não ter comparecido à primeira. Encarou a porta fechada por alguns segundos e tomou sua decisão. "Se vou acabar chorando mesmo, que seja agora que já corri feito louca pela universidade inteira." Respirou fundo e entrou.

- Muita coragem a sua entrar na minha aula a essa hora! O professor a fulminava com os olhos.
- Desculpe o atraso Professor. Disse, encarando-o, mesmo que estivesse somente uns trinta segundos atrasada. Ainda posso assistir sua aula?
- Muita coragem a sua perguntar isso! Por acaso não sabe que não tolero atrasos?!
- Desculpe Professor. A turma a encarava. A falta de sentido daquilo tudo a estava deixando com mais raiva do que com medo, para falar a verdade. E choro algum se pronunciava. Como não era minha intenção atrapalhar, só gostaria de saber se posso assistir a aula ou não. Se não, vou direto na secretaria trancar a matéria. Se sim, o Senhor tem minha palavra de que esse incômodo não se repetirá.
O Professor não havia desgrudado os olhos dos dela, mas diante de sua última frase, seu olhar reprovador havia se transformado em surpresa. A encarou por mais alguns segundos e então disse:
- Se é assim, vá logo colocar seu jaleco, já perdemos tempo demais. Mas se isso acontecer novamente, é melhor que nem entre!
- Sim, Senhor. Disse, e se dirigiu para o fundo do laboratório.
Todos na turma a encaravam como se ela fosse uma heroína. A primeira criatura em anos a conseguir se safar dos berros e ofensas do Professor e, mesmo atrasada, ainda conseguir assistir sua aula! Nada assim havia acontecido antes.
De sua parte, ela só via duas explicações, ou o Professor estava ficando velho e estava amolecendo, ou ela havia feito o que ninguém antes havia tentado, não tremera diante dele, não demonstrara medo, e fora sincera.

C.C.

12/02/2012

"A doce vida"

Uma palavra que nos momentos de fraqueza se faz presente e toma conta de tudo à minha volta. Desisto.
Quando se tenta e já tantas vezes o fracasso é a resposta; quando se levanta e o próximo passo te leva ao abismo; quando todos os seus esforços são desmerecidos e não há uma palavra, um olhar ou um sorriso que te guiem de volta para a luz... Desisto.
Os vencedores brindam e dançam enquanto meus sentimentos são abafados por uma total indiferença, e tempo e espaço já não mais existem. A realidade mostra-me as costas, e já não me importo mais.
Que deixem os Deuses com seus louros, e os mortais no esquecimento. Agrego-me a esta massa pulsante que já não sente e apenas existe, pois que este é o destino dos que fracassam.
Desistir é padecer no esquecimento.
Assim dito, levanto-me e sigo em frente.

C.C.

8/27/2012

A arte de escrever

Disseram uma vez que a arte de escrever consiste em se ter algo a dizer, e dizê-lo. Ás vezes se tem tanto a dizer que as palavras atropelam-se umas sobre as outras e nada coerente é capaz de escapar. Ás vezes o que temos a dizer perde-se no meio de divagações sobre o que é certo e errado e sobre o que deve ou não ser dito. A arte de escrever parece simplória , mas quando se almeja alcançar um certo nível, ela torna-se complexa e árdua.
Qualquer um pode escrever sobre a beleza de uma rosa, mas poucos são os que conseguem tornar a rosa algo realmente belo.

C.C.

8/04/2012

O Ciclo

O que eu achava importante postar aqui e dividir com o resto do mundo parece não ter mais espaço no ritmo atribulado em que tenho vivido. Palavras cheias de significado ficam aqui empoeiradas, enquanto dentro de mim uma revolta surda cresce. A diferença é que eu sei que ela está crescendo dentro de mim - eu sei - e a cada dia que passa mais cresce minha indiferença. Algum tipo de alarme deveria ter começado a soar em algum momento nestes dois últimos anos, e acho mesmo que eu ouvi algo familiar, mas o dia-após-dia-após-dia-após-dia-após....
Silêncio.
Misturando-se aos milhares de sons e ruídos do caos que nos rodeia, o alarme tornou-se parte do meio, e no afã de liberar meus pensamentos do barulho excessivo, eu o perdi.
Duas vozes controlam minhas ações: uma fala do caminho a seguir, a outra, da escolha. Acho que todo fim de ciclo é marcado por estas duas vozes.
Falei sobre a revolta que cresce dentro de mim, eu a sinto o tempo todo e na tentativa de me livrar dela, eu me torno indiferente. Novamente, dia-após-dia-após-dia-após-dia-após-dia-após.....
Creio que nesta altura eu já tenha me distanciado de um certo numero consideravel de amigos, não porque eles tenham deixado de significar algo para mim, mas simplesmente porque eu não podia mais. Eu tinha uma escolha a fazer, e eu a fiz. Eu escolhi a revolta, e a indiferença.
Certamente me parecia impossível seguir em frente.
"Se eu me sinto só? Não. Se eu sinto falta dos meus amigos? Com certeza.
Mas ainda faltam seis meses até a loucura acabar, e o que as pessoas ao meu redor talvez ainda não tenham percebido é que eu troquei tudo, absolutamente tudo, pelo fim.
Eu não me importo mais, a única coisa que importa é um pedaço de papel.
Seja certo ou errado, justificavel ou não, eu não ligo.
E cada dia que passa, cada passo que dou em direção a esse dia me torna ainda mais indiferente, porque uma parte de mim ainda luta na tentativa de restaurar o que um dia eu fui, e é essa parte de mim que faz com que a minha revolta aumente.
Um dia eu disse aqui que devíamos manter nossas esperanças na humanidade, que valia a pena continuar tentando. O fato é que, hoje, eu simplesmente não me importo mais.
Eu não sei se vale a pena. Eu não sei se vale o esforço. Acho que esse curso maldito finalmente conseguiu, ele tomou a minha vida, e agora, está tomando a minha alma.
E eu sei. E eu não ligo a mínima para isso.
Essa é a voz que fala sobre o futuro.
"Não é certo. Tantas escolhas, tantas oportunidades. O sol aquecendo minhas mãos, o frio penetrando minha pele, as palavras - elas ainda têm um significado. Ainda existe aquele brilho nos olhos e o sorriso sincero. Ainda existem pessoas pelas quais se vale a pena seguir em frente. Pessoas que ainda não estão aqui, aquelas que se tornarão - e talvez até mesmo já sejam - as mais importantes da sua vida: seus filhos.
Sorria. Releve. Respire. Calma. Calma. Calma. Calma. Calma. Calma. Não vale a pena se estressar por isso. Calma. Calma. Calma. Existe muito mais do que isso, e não vale a pena perder a cabeça. Respire. Releve. Calma. Sorria."
Essa voz, fala sobre as escolhas.
Ela diz que eu posso escolher ser feliz. O problema, é que esse maldito pedaço de papel não vai servir para nada se eu escolher a felicidade. Porque eu não consigo ser feliz num lugar onde as pessoas não têm respeito, não se importam, e são indiferentes. Isso me deixa enjoada, irritada, revoltada. Isso me torna indiferente. Esse lugar, ele me torna aquilo que eu não suporto, aquilo que eu abomino.
Se eu continuar...
Mas se eu não continuar, para onde devo ir? Que caminho seguir? Onde é o meu lugar?
Eu não sei.

C.C.

2/18/2012

Teu doce sabor

A claridade meus olhos invade
Sinto o peso que sua falta faz
O ar não me entra nos pulmões
E sinto as batidas aceleradas de meu coração .

Tento levantar-me
Minha cabeça gira
A dor quase me cega
Tropeço em direção a luz .

Longe de casa
Longe de minha amada
Anseio pelo teu calor
Teu sabor que me devolve a vida .

Busco desesperadamente te encontrar
Nesta casa estranha, onde estarás?
Ainda lutando contra a dor eu busco
E como por milagre, lhe encontro.

Doce como o céu
Onde teu sabor me leva
Amargo como o inferno
Onde tua falta me atira.

Sôfrego, tomo-a em minhas mãos
Sôfrego, bebo de teu elixir.
Tua essência acalma minhas dores e meus anseios
Tua essência me devolve a paz.

Enamorado fito tua superfície negra
Escondida estás nesta bebida mágica
Dona de minhas idéias, senhora dos meus dias!
Minha amada Cafeína.

C.C.

2/08/2012

Equilibrium

Algumas vezes nos encontramos onde deveríamos estar, numa espécie de equilíbrio emocional, onde poucas coisas são capazes de nos abalar, onde não importa o que aconteça, encontramos sempre o chão debaixo de nossos pés e seguimos em frente. Outras - a maior parte do tempo - não.
É incrível a maneira como chegamos no estado de equilíbrio, mas mais incrível ainda é a maneira que saímos dele. Não é algo que se perceba de imediato - em ambos os casos. Então como chegar lá? Como sair?
Somos simplesmente jogados em determinado momento de nossas vidas, e depois de certo tempo tragados de volta para o caos? Ou caminhamos lentamente, sem perceber, para o equilíbrio ou para o caos.
Manter-se firme na corda bamba é um dom, cair é uma lei natural. Muitos caem, alguns levantam e continuam tentando, raros são os que chegam até o fim sem uma queda em seu histórico. O importante, é continuar tentando.
Lembrar que cada ato é seguido de uma consequência é o essencial para se manter na corda bamba, pois o menor descuido pode nos levar ao chão - a menor distração, pode ser fatal.
Lá vamos nós, outra vez.

C.C.

2/02/2012

Reflexos

A luz continua mudando, a cada ano que passa eu percebo essa mudança. Como se minha memória fosse mais nítida, ou o que está diante de meus olhos, mais apagado. Talvez o mundo esteja mesmo perdendo a sua cor, mas temo que sejam meus olhos que estejam perdendo a esperança.
Agarro-me aos matizes esverdeados que emolduram o castanho de teus olhos e ao brilho vívido de seu olhar quando me contemplas - e esta, é a única esperança que me resta.

C.C.

1/18/2012

Deserto

Meus sentimentos ecoam
Uma vontade que me invade
Sinto a fúria que me atinge
As lágrimas que rolam

O olhar de fogo penetra
Meu coração queima,
minhas entranhas
Livre sou - livre parto.

Ao redor um grito cresce
A fúria não saciada
A vitória não o aquiesce
O ódio não se acalma.

O descanso tão esperado
Minhas lágrimas o chão encharcam
Meu corpo jaz a seu lado
Lealdade? Não conheci.

Meu espírito é livre;
Minha batalha eu venci.

C.C.

11/02/2011

Quando temos uma visão da realidade

É muito bonito falar de amizade como se fosse a coisa mais importante do mundo e na hora em que uma pessoa precisa do seu apoio, ao invés de demonstrar compreensão, você exigir ainda mais dela.

Meus amigos, meus verdadeiros amigos, são aqueles que não estão ao meu lado o tempo todo, aqueles que mal tenho tempo para ver ou falar, aqueles que às vezes nem sabem o que está acontecendo na minha vida no momento, mas que quando nos encontramos novamente colocamos tudo em dia e a mera presença um do outro é motivo de alegria.
São aqueles que ao invés de me cobrar tempo, pensam em mim quando não estamos juntos e rezam para que esteja tudo bem, e para que possamos nos encontrar em breve, para que ele possa contar aquilo que despertou sua lembrança. Amigo de verdade é aquele que ao invés de exigir, lembra com carinho.

Amigo de verdade você só percebe que tem quando passa um ano sem saber um do outro e quando se reencontram o abraço que trocam e a alegria nos olhos são sinceros.

Algumas pessoas precisam ainda passar por muita coisa na vida para entender o verdadeiro significado da amizade, ao invés de ficar cobrando de alguém algo que nem ao menos sabem o que é.

Fiz meu último esforço ontem, hoje conversei com alguém que já viveu muito mais que eu e percebi que eu talvez pudesse até estar errada, mas com certeza um amigo de verdade ao invés de me acusar sem querer saber dos meu motivos teria antes se preocupado comigo e tentado conversar para saber o porque de minhas atitudes.

Quando precisei quem me apoiou foi aquele que disseram que seria apenas passageiro, enquanto amigos são para sempre. Então aqui devo fazer uma ressalva - amigos de verdade são para sempre, e de fato, estes se mostraram solidários e permaneceram ao meu lado.

Não estou em condições de querer agradar a todos, ou de me doar a todos. Estou fraca e cansada. Neste momento preciso pensar em me curar e em recuperar minhas energias. Retiro-me do jogo neste momento. Sei que aqueles que realmente me amam e se importam comigo irão entender e permancer ao meu lado. Não preciso mais do que isso.

C.C.

PS: O jasmineiro está com botões *-*

9/03/2011

Os sinos bradam

Os sinos bradavam e ela sabia que era hora. Já sentia o anúncio da música que viria dentro de si há muito tempo, e tentando ignorar os sinais, ela continuava no mesmo caminho, esperando.

Ao longo da estrada encontrou o que achava ser o sinal para continuar, mas o sinal era sempre uma esperança frustrada. Ela sabia que o que sentia não vinha de fora. Estava dentro dela, sempre.

Não culpava ninguém, nem o poderia. Não havia um culpado senão seu "sangue".

O tempo continuou passando e ela continuou andando. Ignorando os tropeços, ignorando obstáculos, ignorando a ausência, ignorando o som dos sinos que se tornava cada vez mais alto à medida que ela avançava.

E cada vez mais alto, cada vez mais alto, na tentativa desesperada de ignorá-los, não percebeu quando se desviou de seu caminho, um desvio muito sutil, que a levava direto para o som dos sinos.

Mas agora ela percebe que não está mais onde deveria estar, e que o som dos sinos não vinha de um lugar á frente, ele vinha de dentro. Já não tem mais coragem para ignorá-lo, sabe que a hora chegou, e aguarda.

8/22/2011

Enquanto isso, num banco do CTC

Segunda-feira.

Vento, chuva, frio. Muito frio. Ela está fadada a ficar num banco de um prédio de salas de aula em algum lugar da universidade, pois não há biblioteca. Tem muito barulho e nenhum conforto. A aula começa às 20:00, ainda falta uma hora. Quais as condições necessárias para um estudo de qualidade? Em primeiro lugar, um ambiente onde haja um mínimo de silêncio e conforto. Uma mesa ou uma cadeira já são o suficiente. Mas as salas estão ocupadas neste prédio, e no prédio no qual ela poderia ficar (o seu centro) as salas são trancadas à noite.

Greve.

Não aguento mais. Como alguém vai traçar gráficos sentado num banco??

Eu...Só queria um lugar decente pra estudar, já que é só o que faço da minha vida. É pedir demais?

C.C.


7/03/2011

Nina's dream

Era tarde e ela dormia tranquila em sua cama. As portas da casa estavam inquietas e as janelas rangiam em suas dobradiças. O vento agitava o mundo fora de sua casa, revirando latas e garrafas nas ruas, arrancando telhados de casas frágeis, levando terra pelas ruas e açoitando tudo e todos que entravam em seu caminho.

Nina nada via, Nina nada ouvia. Imersa em um mundo tranquilo onde apenas uma leve brisa brincava com seus cabelos, ela corria risonha por pastos verdes enquanto perseguia amigos que existiam apenas em seus sonhos. E quando acordava, Nina chamava por eles, enquanto a tempestade que assolara o mundo à noite, assolava agora os verdes pastos de seus sonhos.

C.C.

27/06/2011

6/18/2011

O Reflexo na janela

Abriu o caderno e recebeu o olhar reprovador das palavras e cálculos ali gravados. Ouviu a voz de sua consciência lhe dizendo que era hora de começar a estudar. A sala estava vazia, a não ser por ela. O prédio onde estudava na universidade de sua cidade era velho e tinha uma estrutura precária. A maioria dos estudantes da faculdade tinha medo de passar por ele, principalmente à noite, e o chamavam de Labirinto. Suzane já estava acostumada com seus corredores e voltas, e já não entendia o porque de o chamarem de labirinto. Mas à noite, ela também sentia medo. Sozinha na sala, preocupada com a prova da semana seguinte, ela ouvia os passos de alguns estudantes do período noturno passando pelo corredor, e a voz de um professor na sala ao lado. Percebeu que reconhecia a voz do professor, ele lhe dava aula também. As letras de seu caderno continuavam a lhe enviar olhares reprovadores, Suzane já não lhes dava importância, estava pensando em como estava cansada de estar ali, cansada de estudar, cansada da faculdade, cansada dos amigos, cansada. Olhou para o quadro negro e percebeu um movimento próximo à janela. Estava escuro e frio na rua. Mas não havia nada lá. Uma janela estava aberta e as cortinas de material pesado oscilavam vagarosamente, quase que imperceptivelmente, com o vento noturno. Uma das integrais lhe lançou um olhar zangado, Suzane voltou sua atenção para o caderno novamente.

Como era fácil se perder em um detalhe quando sua mente estava longe. Uma aula havia terminado e os alunos saiam da sala fazendo barulho. Suzane não conseguira progredir ainda em seu estudo. Recostou-se na cadeira e soltou um suspiro longo. Suas costas doíam. Estava sentindo uma dor localizada já desde o inicio da semana, no dia anterior nem conseguira se movimentar direito. Cansada, começou a massagear o local dolorido, com os olhos fechados, seus ouvidos captavam os sons do ambiente ao seu redor. Vozes, passos, pequenos movimentos nas salas próximas. Abriu os olhos e novamente percebeu um movimento próximo à janela. Não havia nada. Com o reflexo das lâmpadas não conseguia ver a rua direito, somente a sombra de uma árvore. Tosse, espirro, cortina. O corredor estava mais silencioso agora e ela podia ouvir outros ruídos dispersos. Ajeitou-se na cadeira, ignorando a integral dupla que naquele momento cochichava com sua amiga logo à frente e apontava um dedo acusador para ela. Suzane não lhe deu atenção, sentia agora uma espécie de opressão no peito, uma espécie de desconforto com o silêncio que reinava no corredor talvez. Decidiu dar mais uma chance para as integrais duplas que já haviam decidido que ela era um caso perdido e davam de ombros, olhando para os lados. Mais uma ondulação nas cortinas. Suzane as encarou. Percebeu então que aquele sentimento de desconforto estava aumentando, olhou para suas coisas sobre a mesa e começou a guardá-las, mesmo achando-se patética por ainda sentir medo depois de quatro anos estudando no prédio. Uma cadeira rangeu na outra sala e seu coração deu um salto, olhou para o lado para atestar a si mesma o quanto era ridícula aquela situação, e engasgou-se com uma risada que ficou presa em sua garganta. Havia um rosto a encarando na janela. O susto foi tanto que Suzane não conseguia se mover ou falar, e enquanto tentava retomar os sentidos viu um olho piscando para ela no reflexo do vidro. Ele a encarava de uma classe próxima à janela. Não havia ninguém sentado ali. Em pânico, Suzane fechou o caderno na cara das integrais que não estavam entendendo o porque de todo aquele alvoroço, enfiou suas coisas de qualquer jeito na mochila e saiu desabalada pelo corredor, segurando-se para não correr, sentindo o coração quase sair pela boca.

Na sala, o reflexo do vidro olhava desolado para a porta aberta, sem entender o que havia acontecido.

C.C.