12/19/2010

No silêncio do meu olhar

Às vezes, eu olho para você, e meus olhos não conseguem deixar de fitar os seus. Então minha mente se enche de palavras e versos, e eu tento ordená-los, tento desesperadamente juntá-los e transformá-los em algo coerente, enquanto suas mãos percorrem o meu corpo. Mas olhando em seus olhos eu percebo que nenhuma palavra, nenhum verso ou poesia parecem ser o suficiente para traduzir o quanto te amo, o quão grande é o amor que sinto. E eu queimo, queimo neste fogo que altera os meus sentidos, neste fogo que preenche todo o meu ser, tudo o que sou. E as palavras, os versos, as poesias, toda a louca sinfonia que forma-se em meu interior, e os teus olhos, são o alimento do meu fogo.
E dentro, quando simplesmente desisto de tentar descrever meu amor, dentro dos teus olhos eu vejo o mesmo fogo que é meu, o fogo que é nosso. Porque se palavras não podem descrever este sentimento, os olhos, os meus e os teus - eles podem.

O silêncio do meu olhar contêm as palavras que descrevem todo o amor que sinto, pois diante de ti, eu que sempre encontrei o verso certo, a rima certa, diante de ti e do amor que grita em meu peito, fico muda. E muda eu fito teus olhos e encontro todas as palavras que descrevem o teu amor. Diante deste sentimento que me toma por completo, finalmente entendi que não adianta tentar descrever o amor - o amor é, ele simplesmente é, e dentro dos teus olhos eu contemplo toda a beleza do seu ser.

C.C.

12/16/2010

Porque é tão difícil abrir aquela porta... Quando está tudo no lugar é que aquela velha voz sussurrante decide soprar em nossos ouvidos, detrás da porta. E o sussurro viaja tranquilo por entre os labirintos da nossa mente, trazendo à tona uma imagem, uma palavra... O aperto no peito. Ignorado.

Mas quando nos encontramos naquele turbilhão, onde nem conseguimos pensar direito com tantas coisas para fazer, com tantas exigências - de tempo, de atenção, de um ombro, de um abraço, de um olhar - quando um dia vem após o outro e já nos perdemos em datas pois são todos iguais, aquele sussurro passa desapercebido. É fraco, frágil, e sem importância em meio ao caos do dia-a-dia. Perde-se facilmente e não penetra em nosso coração.

Mas quando vem a calmaria... A voz ganha volume e a porta parece transportar-se para mais perto, para a superfície. Quando se tem tempo para ordenar os pensamentos, os sentimentos, é aí que ela se faz ouvir, é aí que paramos em frente à porta e encaramos desconfiados a maçaneta.

E embora a voz esteja agora mais forte e próxima, tão perto que podemos quase tocá-la - se tivermos coragem para girar a maçaneta - ainda assim uma espécie de paralisia nos toma e só o que fazemos é encarar, ouvir, pensar, mas nunca tocar. 

Entalhadas na porta estão as letras que formam as palavras "CANTO ESCURO." O que há do outro lado, além dos sussurros, além das lembranças, das feridas, do passado? Será que vale a pena abrir a porta e deixar a avalanche de sentimentos já há muito esquecidos transbordar?

"Já há muito esquecidos, ou que queremos esquecer?" Ouve-se o sussurro vindo com o vento.

Sim, aquelas lembranças que trancamos no CANTO ESCURO e deixamos apodrecer - ou criamos esperanças de que apodreçam - porque se a encararmos não temos certeza de que conseguiremos sair ilesos. Não, provavelmente não sairemos. Mas apesar de nossos esforços elas continuam, e quando passa a calmaria e somos obrigados a nos atirar no caos novamente elas retornam para as profundezas, e o tempo que passamos especulando se deveríamos abrir a porta ou não é sugado para dentro do CANTO ESCURO.

Porque é tão difícil?

C.C.

12/10/2010

Férias outra vez

Ha, agora, que venham os livros, meus queridos livros que tive que abandonar pelos estudos, meus adorados livros que me encaravam inquisitoriamente nas estantes, exigindo uma explicação. Meus companheiros, que saudade!

Mas valeu a pena. 

=D

C.C.

11/25/2010

Reflexos

Pelas ruas vão minha alma e minha razão, de mãos dadas seguem unidas... Mas se há um poste no caminho, elas se separam por alguns segundos, e minha mente perde o foco, já não sei quem sou ou o que quero, por alguns segundos, deixo de enxergar, é tudo nebuloso. Parte minha é alma, e parte minha é razão, e separadas, elas já não fazem sentido - nada mais faz sentido. Por alguns segundos... Por alguns preciosos segundos, eu perco o juízo, eu saio do ar. Olho para os lados e tudo que vejo é deserto, tudo que ouço é silêncio, nada se move - estagnação. Por alguns segundos... Por alguns preciosos segundos...

C.C.

10/24/2010

Mestre King

"Se voltar por este caminho e renovar seu convite para eu "me juntar", Stu, provavelmente concordarei. Esta é a maldição da raça humana. Sociabilidade. Cristo assim teria dito:"É, na verdade, sempre que dois ou três de vocês se juntam, algum outro vai perder a merda da vida." Precisarei lhe dizer o que a sociologia nos ensina sobre a raça humana? Eu lhe direi isto em poucas palavras. Mostre-me um homem ou uma mulher solitários e lhe mostrarei um santo. Dê-me dois e eles se apaixonarão. Dê-me três e eles inventarão essa coisa encantada que chamamos de "sociedade". Dê-me quatro e eles construirão uma pirâmide. Dê-me cinco e eles transformarão alguém num pária. Dê-me seis e eles reinventarão o preconceito. Dê-me sete e em sete anos eles reinventarão a guerra. O homem pode ter sido feito à imagem e semelhança de Deus, mas a sociedade humana foi feita à imagem e semelhança de Seu oposto, e está sempre tentando voltar para casa."

Stephen King, A Dança da Morte - página 327,328.

Tirando teias de aranha^^

C.C.

10/10/2010

Ode anual - Primavera


Primavera - a brisa, a chuva, o calor, a grama, o céu azul, pássaros cantando, o jasmin...

Flores amarelas no chão da faculdade, rosas no jardim de casa, orquídeas em todo lugar, perfume de jasmin...

Mais que o sol, que as flores, que a brisa, que o calor ameno, era  o perfume de jasmin que anunciava - invadindo meu quarto docemente, com a brisa - a primavera. Mas não tem mais perfume de jasmin invadindo meu quarto. Não acordo mais de manhã esperando ver o jasmineiro florido, e abro a janela esperando pela lufada de perfume que invadia meu quarto. Não tem mais flores de jasmin enfeitando meu quarto. Mais que as orquídeas que tanto adoro, era o jasmineiro que mais amava. Sim, eu passava o ano esperando para vê-lo florido, esperava o ano todo para sentir o perfume, e talvez por isso a primavera era minha estação preferida. Onde estão os jasmineiros desta cidade? O nosso se foi, meu padrasto teve uma brilhante idéia que acabou por matá-lo, e eu quase chorei quando acordei naquela manhã e o vi seco, completamente desfolhado... Ainda espero sentir o perfume...

E a primavera parece não ter chegado ainda, e as flores amarelas no chão da faculdade parecem não ter caído ainda, e o céu parece não estar tão azul quanto antes. Mas creio que seja só aqui, só aqui em mim, aqui onde ainda guardo luto pelo jasmineiro que nunca mais irá florir.


C.C.

9/02/2010

Falta de Cafeína


Como se fora uma ave a esvoaçar pela praia, asas abertas, penas brancas, a queda pela gravidade, o mergulho no azul, a volta célere, a pesca exibida com orgulho; praia de areia branca, o sol reflete e meus olhos não suportam a luminosidade, cerrando-os sinto, vindo com a maresia, o aroma de café. Falta de cafeína. Estou na sala, o professor fala, não há praia, ou azul, ou ave marítima, mas persiste a maresia, a falta de cafeína.

C.C.

8/28/2010

Ninguém, nem mesmo a chuva...

Nenhum lugar em que nunca estive, alegremente

além de qualquer experiência, teus têm o silêncio;

no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,

ou que não ouso tocar porque estão demasiado perto.


Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra

embora eu tenha me fechado como dedos,

você me abre sempre pétala por pétala como a Primavera

abre (tocando sutilmente, misteriosamente) sua primeira rosa.


Ou se você quiser me ver fechado, eu e 

minha vida nos fecharemos belamente, de repente,

assim como o coração desta flor imagina

a neve cuidadosamente descendo em toda parte;


Nada que possa perceber neste universo iguala

o poder de tua imensa fragilidade:

cuja textura complete-me com a cor de seus continentes, 

constituindo a morte e o sempre cada vez que respira.

(não sei o que há em você que fecha

e abre; só uma parte de mim compreende que nas

vozes de teu olhar cabem todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.


E.E. Cummings


C.C.

8/08/2010

Reflexos

Sentada à beira mar, o som dos pássaros marinhos ecoavam por toda parte. A serenidade em seu rosto era somente uma máscara, um disfarce que assumira sem ao menos perceber que o fizera. Haveria um lugar, algum dia, onde o por do sol pudesse finalmente significar algo mais que um refúgio?

Andara por toda a extensão da praia e sentara-se ali, ali onde o sol tocava o mar ao dar lugar à noite que se aproximava. Ali onde tantas vezes assumira o mesmo ar de serenidade enquanto tentava encontrar um abrigo, uma solução, um milagre. E seus pensamentos espalhavam-se pela praia, suas tristezas, sua luta, seu desespero, sua razão, sua esperança. Às vezes imaginava que as gaivotas davam rasantes sobre seus pensamentos, tentando pescá-los, tentando levá-los para algum lugar onde o sol ainda pudesse iluminá-los. Às vezes uma lágrima escapava, outras tantas um sorriso.

Quando se está tão focado em algo ou alguém, o mundo parece perder o sentido e não percebemos a solidão que aos poucos nos cerca. Não percebemos as horas correrem, não percebemos os dias chuvosos, não percebemos as noites de lua cheia, porque tudo, tudo, nos lembra o algo, ou o alguém. Tudo parece nos aproximar ainda mais daquilo que desejamos, como se todo o universo tivesse sido criado só para nos lembrar de sua existência.

Como as gaivotas, que a faziam lembrar do riso, ou o brilho alaranjado do sol contra o mar, que a fazia lembrar de seus olhos, ou o céu rosado, ou o barco que fazia seu caminho vagarosamente, guiado pela brisa... A brisa a fez lembrar do dia em que a tempestade caíra sem aviso sobre eles, e o vento bagunçara os cabelos negros, e de repente não havia mais nada, só os olhos dela nos dele, só...

Era como se tudo estivesse conectado e de repente, sem aviso, o fim.

Mas as gaivotas continuariam dando seus mergulhos certeiros, a brisa continuaria guiando o pequeno barco à vela, o sol continuaria se pondo, e a noite continuaria voltando. E não haveria mais "nós".

C.C.

8/02/2010

História de outra mente - Enid

Quarto Escuro

 Acordou e permaneceu deitada, encarando o teto do quarto. A madeira escura estava começando a apodrecer, provavelmente pela umidade e falta de luz.

Escuro. Ela podia sentir a vida que nascia nas ruas, podia sentir o sol infiltrando-se pelos poros do quarto frio, mas não havia luz. Levantou-se, pôs os chinelos e foi até a janela. Ela a abriria, e mesmo esperando sentir o calor do sol tocando seu rosto, sabia que só veria uma parede escura coberta por limo e sentiria o vento gelado cortando sua face. Era só o que precisava para despertar.

Inspirou o ar gélido, trocou o pijama por uma calça de couro e uma camisa impecavelmente branca. Pôs o colete preto, pegou o relógio de bolso, deu corda, e colocou-o no bolso do colete. Pôs o coldre em volta da cintura e colocou uma pistola em cada lado, pegou mais duas pistolas, menores, e escondeu dentro das botas de cano alto. Pôs o sobretudo de couro longo, o chapéu e então parou em frente à porta do quarto. Antes de sair inspirou profundamente, tocando a maçaneta. Talvez tivesse virado um hábito, ou talvez fosse realmente necessário. Enquanto inspirava, os olhos fechados, juntava forças e o que mais fosse preciso para sair, para ver o mundo, para continuar vivendo.

 Contrato

 Havia sol, ainda que fizesse frio, seus raios penetravam a cortina fina de fumaça e poluição que se estendia sobre a cidade. Enid seguiu pela rua movimentada, o rosto parcialmente escondido pelo chapéu. Havia um encontro, outro cliente, outro contrato, mais uma morte.

Já não se perguntava mais, os fantasmas pareciam estar cada vez mais quietos, presos a um passado que já não lhe dizia respeito, era só essa espécie de anestesia, como se o mundo à sua volta não fizesse parte dela, e ela não fizesse parte deste mundo.

 Sentiu o cheiro do café à distância. Sempre um café. Parecia que os cafés haviam sido criados para isso, locais onde pessoas que querem silenciar alguém encontravam pessoas dispostas a fazer o serviço. Por um preço, claro, sempre havia um preço a ser pago, sempre havia o contrato.

C.C.