12/17/2013

SAGA - Filipe Catto

Tirando as teias do Blog


Saga - Filipe Catto

Andei depressa para não rever meus passos
Por uma noite tão fugaz que eu nem senti
Tão lancinante, que ao olhar pra trás agora
Só me restam devaneios do que um dia eu vivi

Se eu soubesse que o amor é coisa aguda
Que tão brutal percorre início, meio e fim
Destrincha a alma, corta fundo na espinha
Inebria a garganta, fere a quem quiser ferir

Enquanto andava, maldizendo a poesia
Eu contei a história minha pr´uma noite que rompeu
Virou do avesso, e ao chegar a luz do dia
Tropecei em mais um verso sobre o que o tempo esqueceu

E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho com força, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer

E era de gozo, uma mentira, uma bobagem
Senti meu peito, atingido, se inflamar
E fui gostando do sabor daquela coisa
Viciando em cada verso que o amor veio trovar

Mas, de repente, uma farpa meio intrusa
Veio cegar minha emoção de suspirar
Se eu soubesse que o amor é coisa assim
Não pegava, não bebia, não deixava embebedar

E agora andando, encharcado de estrelas
Eu cantei a noite inteira pro meu peito sossegar
Me fiz tão forte quanto o escuro do infinito
E tão frágil quanto o brilho da manhã que eu vi chegar

E nessa Saga venho com pedras e brasa
Venho sorrindo, mas sem nunca me esquecer
Que era fácil se perder por entre sonhos
E deixar o coração sangrando até enlouquecer

C.C.


3/18/2013

A Fama da Fera

Teria chegado a tempo se não tivesse parado dois minutos para ir ao banheiro. Era o primeiro dia de aula numa disciplina em que a fama se espalha desde o topo da hierarquia acadêmica até as primeiras fases da graduação, não devido a sua dificuldade, mas devido ao seu ministrante. Uma disciplina prática de laboratório em que a pontualidade era essencial para a sobrevivência. Várias histórias aterrorizavam calouros e veteranos ano após ano, de criaturas que saiam aos prantos do laboratório e nunca mais eram vistas nos arredores do curso após alguns segundos de atraso.
Ela tinha certeza que por ser extremamente pontual em qualquer ocasião, isso nunca aconteceria com ela. Agora lá estava, sentada no banco do ônibus, os olhos grudados no relógio, as unhas sendo trituradas pelos dentes - ela rezava para que o veículo ganhasse asas, para se teletransportasse, ou que um raio o partisse em dois, em mil pedaços.
Desceu do onibus levando algumas bolsas, mochilas e pessoas de arrasto. Se ao menos tivesse conseguido segurar a vontade de ir ao banheiro por mais alguns segundos, não teria perdido o onibus, não teria pego um onibus que fosse quebrar cinco minutos após sair do terminal, e já estaria no laboratório, sorrindo. Mas não, lá estava ela, correndo pelo campus da universidade, entoando o mesmo mantra uma vez após a outra: Eu vou conseguir, vou chegar em cima da hora, mas vou conseguir.
Não conseguiu. Alcançou a porta do departamento no exato momento em que o professor se encaminhava para o laboratório. Correndo pelo corredor, viu o exato momento em que ele entrou na sala e fechou a porta atrás de si. Seu coração parou, suas pernas não. Quase caiu nesse desencontro de comandos, e acabou parando na porta da sala. Se entrasse sairia chorando e nunca mais seria vista no curso, se não entrasse choraria na próxima aula por não ter comparecido à primeira. Encarou a porta fechada por alguns segundos e tomou sua decisão. "Se vou acabar chorando mesmo, que seja agora que já corri feito louca pela universidade inteira." Respirou fundo e entrou.

- Muita coragem a sua entrar na minha aula a essa hora! O professor a fulminava com os olhos.
- Desculpe o atraso Professor. Disse, encarando-o, mesmo que estivesse somente uns trinta segundos atrasada. Ainda posso assistir sua aula?
- Muita coragem a sua perguntar isso! Por acaso não sabe que não tolero atrasos?!
- Desculpe Professor. A turma a encarava. A falta de sentido daquilo tudo a estava deixando com mais raiva do que com medo, para falar a verdade. E choro algum se pronunciava. Como não era minha intenção atrapalhar, só gostaria de saber se posso assistir a aula ou não. Se não, vou direto na secretaria trancar a matéria. Se sim, o Senhor tem minha palavra de que esse incômodo não se repetirá.
O Professor não havia desgrudado os olhos dos dela, mas diante de sua última frase, seu olhar reprovador havia se transformado em surpresa. A encarou por mais alguns segundos e então disse:
- Se é assim, vá logo colocar seu jaleco, já perdemos tempo demais. Mas se isso acontecer novamente, é melhor que nem entre!
- Sim, Senhor. Disse, e se dirigiu para o fundo do laboratório.
Todos na turma a encaravam como se ela fosse uma heroína. A primeira criatura em anos a conseguir se safar dos berros e ofensas do Professor e, mesmo atrasada, ainda conseguir assistir sua aula! Nada assim havia acontecido antes.
De sua parte, ela só via duas explicações, ou o Professor estava ficando velho e estava amolecendo, ou ela havia feito o que ninguém antes havia tentado, não tremera diante dele, não demonstrara medo, e fora sincera.

C.C.