4/19/2016

Ritual

Esse ritual costumava ser sagrado, diário e corriqueiro. Fitar a tela em branco e ali transformar em palavras sentimentos que a dominavam e impressões que atingiam em cheio. Ela fitava o teclado e via as palavras prontas nas pontas dos dedos, que corriam céleres sem tropeçar, traduzindo emoções e imagens que a despertavam de seu torpor costumeiro. 
Era um ritual, e era uma parte de si. Mas em algum momento, em alguma parte, ela se perdeu. O ritual foi quebrado. A partir de então os sentimentos ficaram trancados e as imagens foram se perdendo, sem alguém que os traduzisse, já não faziam mais sentido, e eram deixados de lado... Ela se perdeu, e um dia percebeu que estava no escuro. As palavras já não vinham, e o teclado era cheio de letras em posições aleatórias que pareciam não se encaixar... Seus dedos tropeçavam e desistiam...Calaram-se. Assim como ela se calou para o mundo. E agora ela fita aquela tela em branco novamente, sem emoções, sem imagens para serem traduzidas, e o vazio que a preenche a assusta, e o escura que a cerca a faz tremer. Mas se ela conseguir fitar a luz, a luz que a fascina, a luz daquela tela em branco, e se ela conseguir escrever uma palavra sem tropeçar, então talvez não seja tarde, talvez ainda haja esperança, talvez ela ainda consiga gritar, aquele grito rouco de uma garganta seca há muito não utilizada, aquele grito que vem de dentro, da alma, aquele grito primevo - o primeiro passo para a libertação.

C.C.

3/12/2016

Passion

Angelus:

"Passion. It lies in all of us. Sleeping... waiting... And though unwanted... unbidden... it will stir... open its jaws, and howl.
It speaks to us... guides us... Passion rules us all. And we obey. What other choice do we have?
Passion is the source of our finest moments. The joy of love... the clarity of hatred... and the ecstasy of grief.
It hurts sometimes more than we can bear. If we could live without passion, maybe we'd know some kind of peace. But we would be hollow. Empty rooms, shuttered and dank... Without passion, we'd be truly dead."

3/07/2016

Loss

Eu sei porque me sinto tão triste, sei porque quando paro por alguns segundos meu olhar se perde e vaga sem rumo. Sei porque dentro de minha cabeça aquela cena se repete e não há nada que eu possa fazer para impedir seu desfecho - eu aceito.
Mas no exato momento em que aceito, eu me revolto. Então o mundo dá novamente seu grito desesperado de criança querendo atenção, e sou forçada a me resignar, e a deixar a cena de lado. Mas enquanto dou atenção para o mundo, nada muda, dentro de mim, nada muda...
Ainda sinto o aperto no peito, ainda sinto a resignação, e enfim, a revolta.
Eu aceito sem aceitar, e por um tempo esta será minha luta. O mundo pode gritar, não me importo. O mundo pode não entender, eu entendo. E sei que algumas pessoas compartilham deste entendimento, pois quando meu olhar se perde, sinto seus olhares tão perdidos quanto os meus, vagando pelas brumas da negação.
E tão mais difícil que entender, é tentar explicar. Eu nem tento.
Apenas aceito a companhia dos olhares perdidos como os meus e dos gritos sufocados que ecoam junto ao meu peito.
No fim, o mundo engole nossa dor, e sem querer acreditar, sem querer aceitar, sem querer... seguimos em frente.

C.C.